Anitta e Equilibrivm nos mostram que o maior caminho espiritual é a experiência humana, analisa a terapeuta Gabi Nery
O que acontece quando você conquista tudo aquilo que sempre sonhou e percebe que isso não basta?
Essa pergunta aparece no consultório com mais frequência do que imaginamos. Ela também atravessou a trajetória de Anitta. Poucas histórias representam tão bem o ideal de sucesso que a nossa sociedade aprendeu a perseguir.
Ao longo da última década, Anitta saiu da periferia do Rio de Janeiro cantando um gênero historicamente marginalizado e construiu uma das carreiras mais bem-sucedidas da música brasileira. Nesse percurso, sua sensualidade, sua liberdade sexual, sua personalidade forte, sua ambição, sua capacidade de liderança e o controle que exercia sobre a própria carreira tornaram-se alvo constante de críticas. Em uma sociedade que ainda julga homens e mulheres por medidas diferentes, características frequentemente admiradas em artistas homens, foram usadas para questionar seu valor, seucaráter, sua inteligência e sua legitimidade. Ainda assim, conquistou o mercado internacional, acumulou prêmios, chegou ao Top 1 Global do Spotify e se tornou uma das artistas brasileiras mais influentes da atualidade. Para milhões de meninas e mulheres, passou a representar a possibilidade de romper barreiras sociais, desafiar padrões e construir a própria história sem pedir licença para existir.Para milhões de meninas e mulheres, passou a representar a possibilidade de romper barreiras sociais, desafiar padrões e construir a própria história sem pedir licença para existir.
A história de Anitta desperta tanto interesse porque ela realizou o sonho que grande parte de nós aprendeu a perseguir. Vivemos em uma sociedade que nos ensinou a medir o seu próprio valor pelas conquistas. Corremos de uma meta para outra acreditando que o próximo cargo, o próximo reconhecimento ou a próxima vitória finalmente nos trarão a realização que tanto buscamos. E, nessa maratona que parece não ter linha de chegada, testemunhamos o avanço da ansiedade, da depressão, do burnout e de tantas doenças somáticas. Estamos enfrentando uma grande crise de saúde mental, onde as pessoas funcionam no piloto automático e buscam formas de anestesiar o próprio desconforto: mais trabalho, mais consumo, mais comida, mais distrações, mais horas diante das telas; qualquer coisa que alivie o incômodo de perceber que estamos construindo uma vida da qual, muitas vezes, desejamos escapar.
Depois de alcançar o Top 1 Global no Spotify, Anitta contou que não conseguiu sentir a alegria que imaginava. No lugar da celebração, vieram a exaustão, o adoecimento e a percepção de que, enquanto a artista conquistava o mundo, a mulher desaparecia aos poucos. O sucesso que a levou ao topo também havia criado uma distância entre quem ela precisava ser e quem ela realmente era. Nesse momento, a decisão foi de desacelerar e buscar, nasterapias holísticas, no autoconhecimento, na fé e na espiritualidade, o preenchimento de um vazio que nenhuma conquista havia sido capaz de oferecer. É nesse ponto que sua história deixa de ser apenas uma história de sucesso para se tornar uma reflexão sobre a forma como buscamos sentido para a vida.
A maioria de nós não terá a oportunidade de chegar ao topo aos 30 anos. Passará décadas acreditando que a próxima conquista resolverá o vazio que sente hoje. Quando finalmente perceber que a resposta não estava ali, talvez já tenha dedicado boa parte da vida a uma direção que nunca foi verdadeiramente sua. Na era Equilibrivm, Anitta transforma a própria travessia em um rezo e um manifesto. O projeto ultrapassa a música e convida o público a interromper o piloto automático para refletir sobre a direção da própria vida. Afinal, talvez encontrar o arco-íris valha mais do que passar a vida inteira perseguindo o pote de ouro.
Quando Anitta começou a compartilhar sua rotina de yoga, meditação, terapias holísticas, energia e orixás, muita gente interpretou esse movimento como um sinal de que ela estava deixando para trás a artista que o mundo conhecia. Por um tempo, seus fãs, a imprensa e, talvez, até ela mesma, acreditaram que resgatar Larissa significava se despedir de Anitta. Não foram poucas os memes de que seus próximos shows seriam de mantras, não de funk. Mas por trabalhar há muitos anos com comportamento humano, outro detalhe me chamou mais atenção.
Como acontece com muitas pessoas na jornada de autoconhecimento e espiritualidade, Anitta também atravessou um período de questionamentos e rupturas. Ela própria contou que chegou a se culpar por escolhas da carreira, pela forma como construiu sua imagem pública e até pela relação com o próprio corpo. Esse movimento é mais comum do que parece. Quando começamos a olhar para a própria história com mais consciência e autorresponsabilidade, é fácil condenar a versão de nós que fez o que era necessário para sobreviver, ser aceita, admirada ou amada. Como terapeuta, vejo esse conflito com frequência. Além de buscar pelo sucesso, aprendemos a acreditar que nosso valor depende dele. E quando esse valor começa a ser questionado, é comum acreditar que precisamos rejeitar a pessoa que fomos para nos tornarmos alguém “melhor”.
Essa ideia não nasce por acaso. Ela é sustentada por uma interpretação por séculos distorcida sobre a espiritualidade, que coloca o sagrado e o profano em lados opostos. Como se, para nos aproximarmos de um, fosse necessário renunciar ao outro. No caso de Anitta, essa ilusão parecia ainda mais convincente, porque toda a sua identidade pública havia sido construída sobre aquilo que muitas correntes espirituais costumam condenar: o corpo, a sensualidade, a ambição, o prazer, o sucesso e a matéria.
Foi nesse ponto que minha leitura sobre a Anitta tomou um caminho diferente da maioria. Enquanto muita gente a via abandonando a artista para se tornar mais espiritual, eu enxergava uma mulher fazendo o caminho de volta para si. Principalmente quando ela passou a compartilhar seus trabalhos com a kundalini. Como estudo e utilizo essa energia na prática clínica há mais de dez anos, sabia que aquela energia dificilmente a afastaria de quem era, já que a kundalini compreende a evolução como um processo de integração. A espiritualidade não nos convida a negar os prazeres da carne, os desejos e muito menos a nossa história. Ser espiritual não passa pela fuga da experiência humana, mas pela capacidade de viver seus opostos em equilíbrio, integrando tudo o que somos. Eu só não imaginava que essa integração apareceria de forma tão explícita na obra que viria a seguir.
Foi com o lançamento de Equilibrivm que essa leitura se confirmou. Além da qualidade artística do projeto, Anitta trouxe ao seu público, uma experiência sensorial e imersiva ao redor dele. Durante a turnê, antes do show começar, o público é recebido pela Vila Equilibrivm, um espaço dedicado à meditação, terapias, práticas de bem-estar e experiências de conexão, em um ambiente onde, intencionalmente, não há venda de bebidas alcoólicas. Pouco depois, essas mesmas pessoas entram na arena para cantar, dançar e rebolar até o chão ao lado da maior artista pop do país, onde Anitta e Larissa ocupam o mesmo espaço.
Ao levar essa experiência para o universo do pop, Anitta furou a bolha da espiritualidade e aproximou um novo público de conversas e experiências que, durante muito tempo, permaneceram restritas a poucos círculos. Mais do que aproximar públicos diferentes, ela aproximou mundos que pareciam incompatíveis.
Essa integração também aparece na forma como o projeto reúne diferentes caminhos espirituais. Em vez de apresentar um único caminho de viver a espiritualidade, a obra aproxima referências afro-brasileiras, indígenas e hindus sem colocá-las em disputa. Cada uma delas contribuiu para ampliar a compreensão de que o sagrado pode ser experimentado por diferentes caminhos, todos enraizados na experiência humana.
Para ser espiritual, basta estar vivo.
E não tem como estar vivo sem ser atravessados por diferentes emoções. A obra também dedica espaço para retratar a vida emocional. Ainda existe o estereótipo de que pessoas espiritualizadas devem estar sempre em paz, mansas e calmas, como se evoluir significasse deixar de sentir medo, raiva, tristeza, culpa ou desejo. A maturidade emocional, porém, nasce da capacidade de sentir, processar, compreender e integrar cada uma dessas emoções. A cura acontece quando atravessamos aquilo que sentimos até transformar a emoção em consciência, em vez de transformá-la em culpa.
O vazio que Anitta descreveu ao perceber que havia conquistado o sucesso sem encontrar paz na própria pele parece ter reorganizado toda a sua trajetória. A matéria continuou sendo uma bênção, mas já não com a responsabilidade de saciar a fome da alma. Em vez de abandonar quem era, escolheu abrir caminho para integrar todas as partes de si. Foi isso que levou para a turnê, ao transformar o espaço do show em um convite ao autoconhecimento antes mesmo da música começar. Afinal, precisa ter se curado muito para ter a coragem de chegar no auge e desacelerar para traçar uma nova rota. Depois de uma vida inteira se fazendo em pedaços para caber em um mundo que nunca a quis inteira, Anittaencerra essa travessia afirmando: “Hoje, não peço licença para tomar o meu lugar, apenas informo que eu mesma estou abrindo meu caminho. Sem sacrificar nenhuma parte, me torno inteira. Em cada morte, escolho renascer eterna.”
Equilibrivm nos lembra que podemos continuar desejando o pote de ouro no fim do arco-íris, mas sem perder de vista ou deixar de contemplar a beleza do próprio arco-íris. É durante essa jornada que aprendemos a caminhar acolhendo nossas dores, falhas, erros, medos e contradições, até entendermos, enfim, que o sagrado não existe apesar da matéria, mas através dela.
Gabi Nery é PhD, neurocientista, sexóloga e terapeuta trauma-informed. Em seu trabalho, integra neurociência, kundalini, espiritualidade e abordagens corporais aplicadas ao tratamento de traumas e ao desenvolvimento humano. Compartilha conteúdos diários no Instagram @gabineryy, onde também divulga sua agenda de atendimentos e formações.
