Na política, quem não sabe comunicar pode perder antes mesmo da urna
Após o primeiro debate presidencial de 2026, Micarla Lins, campeã de oratória e debates, estrategista de comunicação, apresentadora e colunista da Gazeta de São Paulo, analisa por que clareza, argumentação e coerência podem se tornar decisivas na corrida eleitoral
Uma eleição não começa quando o eleitor chega à urna. Muito antes do voto, uma disputa menos visível já está acontecendo: a disputa pela atenção, pela confiança e, principalmente, pela capacidade de ser compreendido.
O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela Band no último domingo (23), colocou essa questão novamente no centro da corrida eleitoral. O encontro reuniu Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury e ficou marcado também pelos púlpitos vazios de Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema. (Band)
Independentemente de quem foi considerado vencedor ou derrotado, o debate evidenciou uma transformação que tende a atravessar toda a campanha: em um ambiente político acelerado por redes sociais, entrevistas, podcasts, cortes de vídeos e repercussões instantâneas, possuir propostas deixou de ser suficiente. É preciso conseguir comunicá-las.
Para Micarla Lins, estrategista de comunicação, campeã de oratória e debates, apresentadora e colunista da Gazeta de São Paulo, conteúdo e comunicação não deveriam ser tratados como elementos concorrentes.
“Uma boa proposta que o eleitor não consegue compreender perde força política. Comunicação não substitui conteúdo. É ela que permite que o conteúdo atravesse a complexidade e chegue às pessoas.”
Micarla construiu parte de sua trajetória dentro da argumentação competitiva. Foi a primeira mulher brasileira a vencer um torneio nas modalidades de oratória e debates e atuou como juíza-chefe de um Mundial de Debates em Espanhol. Em 2026, passou também a acompanhar de perto a corrida presidencial, entrevistando candidatos e participando da cobertura eleitoral pela Gazeta de São Paulo.
Mas, segundo ela, analisar comunicação política está longe de significar premiar quem fala mais bonito.
Falar bem não é a mesma coisa que comunicar bem
Um candidato pode ter excelente oratória e dificuldade para explicar uma proposta. Pode construir frases memoráveis, mas não conseguir sustentar um argumento quando confrontado. Da mesma forma, alguém pode possuir conhecimento técnico e perder o eleitor porque não consegue transformar esse conhecimento em uma mensagem compreensível.
É justamente nesse espaço entre ter uma ideia e conseguir transmiti-la que a comunicação passa a interferir na construção da percepção política.
Uma resposta dada durante uma entrevista pode circular por milhões de telas poucas horas depois. Uma frase mal construída pode virar crise. Uma contradição pode ser recuperada imediatamente. E uma resposta eficiente pode produzir uma percepção de liderança que nenhuma peça publicitária conseguiria fabricar com a mesma espontaneidade.
Por isso, debates e entrevistas possuem uma característica particular: diminuem o controle que o candidato exerce sobre a situação.
“Quando tudo está controlado, praticamente qualquer pessoa bem treinada consegue reproduzir uma mensagem preparada. O verdadeiro teste acontece quando surge uma pergunta inesperada, uma crítica ou uma situação para a qual não existe uma resposta pronta”, afirma Micarla.
É nesses momentos que repertório, capacidade de raciocínio, domínio emocional e escuta ganham relevância.
O público não observa somente o que alguém responde.
Observa como responde.
O candidato comunica mesmo quando está em silêncio
A comunicação política também ultrapassa as palavras.
Postura, segurança, capacidade de ouvir, reação diante de uma provocação, domínio emocional e coerência entre discurso e comportamento participam da construção da imagem pública de uma liderança.
Uma pergunta difícil pode revelar preparo. Uma reação desproporcional pode produzir insegurança. Uma resposta evasiva pode gerar mais repercussão do que aquilo que o candidato pretendia dizer.
Em um debate presidencial, isso ganha ainda mais importância porque governar significa, em grande parte, lidar com ambientes que não podem ser inteiramente controlados.
Presidentes enfrentam crises, oposição, imprensa, negociações, cobranças e decisões inesperadas. A maneira como uma liderança reage quando perde o controle do roteiro também comunica.
A política entrou definitivamente na disputa pela atenção
Existe ainda um componente que transformou profundamente esse ambiente: o tempo.
O eleitor recebe informações políticas misturadas a entretenimento, notícias, publicidade, opiniões, memes e milhares de conteúdos diariamente.
Isso significa que uma candidatura não disputa atenção apenas com seus adversários.
Disputa atenção com praticamente tudo o que aparece na tela do eleitor.
Nesse cenário, mensagens excessivamente técnicas ou discursos que não conseguem estabelecer relação clara com a vida das pessoas encontram dificuldade para atravessar a quantidade de informação disponível.
Para Micarla, isso não significa transformar política em espetáculo ou reduzir discussões importantes a frases de efeito.
Significa compreender que comunicar também é tornar o complexo acessível.
“Simplificar a linguagem não significa empobrecer uma ideia. Muitas vezes significa exatamente o contrário: dominar suficientemente um assunto para conseguir explicá-lo.”
A diferença entre simplificar uma ideia e torná-la simplória, portanto, passa a ser uma das fronteiras mais importantes da comunicação política.
Quando comunicação vira apenas performance
Existe, porém, outro lado dessa discussão.
Se candidatos precisam compreender os mecanismos da comunicação contemporânea, dominar esses mecanismos não garante preparo para governar.
Uma candidatura pode produzir bons cortes, construir frases virais e conquistar enorme atenção sem apresentar a mesma capacidade em relação a propostas, conhecimento ou execução.
Oratória não substitui conteúdo.
Viralização não equivale a competência.
E atenção não é sinônimo de autoridade.
Ao mesmo tempo, a internet tornou mais difícil sustentar uma comunicação baseada apenas em performance.
Declarações antigas reaparecem. Entrevistas são recuperadas. Promessas são comparadas. Posicionamentos adotados para públicos diferentes podem ser colocados lado a lado em questão de minutos.
Por isso, para Micarla, a comunicação política consistente depende de algo que antecede qualquer técnica: coerência.
“Imagem pode abrir uma porta. Comunicação pode gerar atenção. Mas confiança exige coerência. E confiança política não se constrói apenas durante uma campanha.”
A eleição de 2026 também será uma disputa pela interpretação
Nos próximos meses, pesquisas, alianças, rejeição, intenção de voto e propostas continuarão naturalmente ocupando o centro do debate público.
Mas outra disputa acontecerá simultaneamente.
Quem consegue explicar melhor suas ideias?
Quem reage melhor quando confrontado?
Quem consegue transformar uma proposta complexa em algo que o eleitor compreenda sem esvaziá-la?
Quem demonstra segurança sem parecer artificial?
Quem consegue adaptar sua linguagem para públicos diferentes sem abandonar a coerência?
E quem possui repertório suficiente para continuar raciocinando quando a resposta preparada deixa de servir?
Essas perguntas não substituem a análise das propostas dos candidatos, mas podem ajudar a compreender por que determinadas lideranças conseguem avançar e outras perdem força antes mesmo da votação.
Porque, em uma eleição marcada pela velocidade da informação, não basta ter algo a dizer.
É preciso conseguir sustentar aquilo que se diz e fazer o eleitor compreender por que aquilo importa.
Na política, quem não sabe comunicar pode perder antes mesmo da urna.
Sobre Micarla Lins
Micarla Lins é estrategista de comunicação, posicionamento e influência, fundadora e CEO da Lins and Co., apresentadora e colunista da Gazeta de São Paulo. Campeã de oratória e debates, foi a primeira mulher brasileira a vencer um torneio nas duas modalidades e atuou como juíza-chefe de um Mundial de Debates em Espanhol. TEDx Speaker e palestrante internacional, trabalha com comunicação, autoridade, reputação e influência de empresários, executivos, lideranças e figuras públicas. Em 2026, passou também a atuar na cobertura das eleições, entrevistando candidatos à Presidência da República e acompanhando a corrida presidencial pela Gazeta de São Paulo.
